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sexta-feira, 13 de março de 2015

Não de um valor negativo a solidão - Solidão por opção




Nós animais da espécie humana, como tantos outros mamíferos, temos a necessidade de fazer parte de um grupo, de estar em grupo, de confraternizar, de se afirmar a nível social. Porque vivemos em sociedade. Vivemos até o fim da vida em sociedade, somos fortemente condicionados a isso, até que o nosso DNA psicológico se desfaz do traço da nossa necessidade natural e sentimos a necessidade de-estar-sozinho, a necessidade de estar com si próprio. Não sozinho. 

Minha solidão não tem nada a ver com presença ou ausência de pessoas… Detesto quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia… (Nietzsche)

O desejo de estar só é visto com frequência como o sintoma de uma patologia social. Na imaginação coletiva a solidão sinalizaria dificuldade de convivência com outras pessoas. 

Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais: o excesso de gente impede de ver as pessoas... (Mario Quintana)

Mas na realidade, a capacidade de estar em companhia de se si próprio é o resultado de escutar o seu próprio mundo. A capacidade de estar sozinho sem “pirar” é um sinal de equilíbrio emotivo e de saúde mental.

"Estar só é falar por si mesmo, é não ter diante de si, nem atrás de si, algo que lhe ampare, que lhe sustente; é não representar ou ser representado por algo. Rejeição é repulsa, desaprovação. Estar só não implica em rejeição e esta não leva necessariamente à solidão". (Gilles Deleuze)

As pessoas dão um peso para a palavra solidão. É sempre como se fosse algo muito pesado, difícil e triste. 

Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite. (Clarice Lispector)

Nos romances, nos filmes, nas canções, na TV, etc. A solidão é sempre rejeitada pelos protagonistas. Isso fez nascer um pensamento de que estar sozinho, é feio, triste, é mal. E assim, quando somos obrigados a estar sozinho, acreditamos que seja uma coisa fora da nossa natureza, anormal, doentio... E associamos ao nosso estar sozinho um valor negativo... De consequência temos um sentimento negativo: “Se eu não estou com uma pessoa, estou sozinho, me sinto sozinho. Então sofro”.  Quando estamos sozinhos por muito tempo, nos sentimos desconfortáveis e sofremos em silencio, lamentando secretamente pela nossa incapacidade de ter amigos. Ser sozinho, sentir-se sozinho não quer disser sentir-se desesperado. A solidão não é um dano causado pela infância, é uma condição psicofísica normal. 

(...) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano." (Cecilia Meireles). 

Amo minha solidão, me sinto realizada, satisfeita, plena de energia. A solidão me faz drenar as emoções estranhas recuperando o contato com meu interior. Minha solidão se sente acompanhada.

Não sou sozinha... 
A minha solidão me faz companhia
E me mantem ligada a um fio tênue dando-me existência...
Amo minha solidão, quando transborda no meu destino me coloca pela estrada 
da vida enquanto me mantenho respirando...
Quero a minha solidão, como cada lagrima minha escondida no mar, para me fazer sentir menos culpa...
Procuro minha solidão em lugares onde reina o vazio e ela sem piedade limita os meus espaços...
Eu gosto da minha solidão, perfume d’a infelicidade e cada sorriso meu considera um pecado...
Sonho a minha solidão, porque da vida a minha noite e arrisca a mudar meu mundo acalentando-me...
Odeio a minha solidão, porque depois que se tornou minha lei é a minha companheira ideal, 
me traduz para resto do mundo...
Adoro a minha solidão, porque diferente dos outros me abandona, mas depois volta, e vai e volta...

Passar muito tempo em meio as pessoas provoca no meu mundo inteiro uma sobre carga de emoções e para reencontrar a o equilíbrio interior tenho a necessidade de respeitar o meu desejo de solidão. Eu gosto de estar na companhia de amigos e se divertir com eles, mas muitas vezes eu só preciso passar as noites em solidão, olhar para a TV, ler ou ouvir rádio...

“Estou sozinho mesmo quando não estou, e não é tão complicado de entender. Individualidade é meu forte, eu meio que adotei o desapego. Não é questão de ter alguém por perto, eu gosto do silêncio, encontrei companhia em mim. Também não é questão de ser antissocial, ou depressivo. Sou uma pessoa feliz, me divirto saindo, mas não dependo disso para encontrar uma distração, as pessoas não são meu ponto de fuga. Eu gosto de ser o que eu sou, e aceito isso de braços abertos. Não forço para tentar ser o que não me agrada. Sentimento bom é assim, desprendido. Sem ter que dar explicações ou inventar qualquer desculpa para não precisar ir a algum lugar. Solidão opcional é um estado de espirito.” (Sean Wilhelm).

A solidão estimula a vida depois que nos permitimos saborear o amargo sabor da separação que nos empurra a procurar o outro.

Baseado no texto de Cristina Rossi Morley

domingo, 14 de dezembro de 2014

A vida que perdi

Amanhã farei, amanhã serei, manha mudarei, amanhã direi... amanhã, amanhã, amanhã. E de amanhã em amanhã eu cheguei na minha idade. Parece que foi ontem que sonhava com meus dezoito anos para tirar a carta de motorista. Depois de um momento já estava com vinte e cinco. E os vinte um? Não me lembro. Quantas promessas me fazia e depois nunca me cobrava. Dormia com o perfume da revolução. Na esperança que a noite me trouxesse conselhos.
...
Preciso de uma noite só minha. Para pensar na vida, entender onde errei, mas sobretudo saber onde a deixei. Se tive uma vida significa que em algum lugar a abandonei. Talvez esteja sentada em algum canto à minha espera. A encontrarei e direi “oi, como vai? Tudo bem? Eu demorei muito? Você sabe que tem razão, me desculpe, ok? Agora vamos? ”
Estou em silencio a pensar, procurando escutar, procurando descobrir aquela vozinha de que muitos falam, da famosa criança que temos dentro de nós. Sinto o barulho da geladeira, dos carros passando, qualquer barulho de origem desconhecida, mas voz nada. No máximo o barulho do meu estomago.
...
Eu aprendi a pensar com o coração e a mar com a cabeça. Amar com a cabeça não quer disser amar com a razão, mas quer disser dar rédeas aos sentimentos que não pode ser nunca destrutivo. Porque o amor, quando é destrutivo, não é amor. Essa descoberta ajudou a me aproximar do mundo real. 


Il tempo che vorrei - Fabio Volo